Por: R. Silva
Recentemente foi lançado pela Netflix o documentário “Rezar e Obedecer” (2022), que conta a história do “profeta” mórmon polígamo Warren Jeffs e seus crimes que levaram a sua prisão. Jeffs se tornou presidente da igreja FLDS (sigla para Fundamentalist Church of Jesus Christ of Latter Day Saints, Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, FSUD em português) em 2002 e ficou no posto até sua prisão em 2007. Há muitas pessoas se posicionando na internet sem entender de fato todos os fatos, e por isso resolvi escrever esse texto, detalhando toda a história dessa igreja e no caso do fundamentalismo mórmon, para entendermos por completo o documentário.
Em si, o documentário começa falando de como o pai de Warren, Rullon Jeffs (1909–2002) liderava a igreja FLDS na década de 1990, porém a história dessa igreja está ligada a uma divisão entre os fundamentalistas que ocorreu em 1954, que por sua vez é ligada a um movimento que começou em 1929, que era fruto do Manifesto de 1890. Por isso resolvi começar toda a história da poligamia mórmon desde seu início. Já temos aqui nesse blog duas publicações sobre a poligamia, uma detalhando a vida daquele que é tido como fundador do fundamentalismo, John Woolley [1], e outra sobre a controversa Revelação de 1886 [2], por isso não vou me delongar nesses 2 assuntos quando chegar neles.
Joseph Smith Jr. (1805–1844) já era um adúltero antes de fundar sua igreja em 1830, logo após ele se casar com Emma Hale em 1827, já há relatos dele seduzindo outras mulheres, porém de fato o conceito de poligamia só começa a entrar no mormonismo em 1831, quando Joseph Smith tem uma revelação que permitia que seus missionários se casassem com índias enquanto estivessem em missão entre os nativos, porém de fato a poligamia como lei só entraria na igreja com a revelação dada a ele em 1843 (atual D&C 132) [3]. Porém entre 1831 e 1843 Joseph Smith tinha se casado secretamente com ao menos 3 mulheres além de Emma, e seduzido várias outras, incluso casadas. Com a lei em vigor, no espaço de um ano, ele se casou secretamente com mais de 30 mulheres, pois ele seria morto em 27 de junho de 1844 [4].
Com seu seguinte líder, Brigham Young (1801–1877) a igreja mudou sua sede para o estado de Utah em 1847, e nessa época o território além de ser bastante isolado da população em geral, não era um território oficial dos EUA, e isso favoreceu para que Young e seus seguidores praticassem mais abertamente a poligamia, que na época era tida como algo obrigatório para a exaltação [5], e isso fez com que Young se casasse abertamente com 56 mulheres. Só que em setembro de 1850 o território de Utah é anexado aos EUA [6], mas até o final da Guerra Civil dos EUA em 1865 a igreja não sofreu tanto com oposição, isso porque as autoridades estavam mais preocupadas com as guerras e conflitos que eclodiram. Porém a situação muda entre 1865 e 1900, pois é o período de reconstrução do país, e a poligamia e abusos decorrentes dessa voltam a serem inimigas do estado.
Com isso uma série de leis contra a poligamia são baixadas pelos EUA, e a igreja tenta resistir como pode, por acreditar ser uma obrigação divina. A primeira lei contra a poligamia foi feita em 1862, que não permitia que a igreja tivesse qualquer propriedade que custasse mais que 50 mil dólares, a não ser as para fins religiosos [7], porém a igreja burlou essa lei e manteve secretamente as propriedades comerciais da igreja. Outras leis vieram na década seguinte, o que levaram a alguns apóstolos a serem presos em 1879, e a igreja gastou mais de 70 mil dólares para conseguir libertá-los. Em 1877, após a morte de Young, John Taylor (1808–1887), um inglês, se tornou presidente da igreja, e ele não daria o braço a torcer para as leis anti-poligamia. Em 1882 foi aprovada a Lei Edmunds, que retirava os direitos civis dos polígamos, o que os tornava inelegíveis a cargos públicos, e com isso o governo e tribunais de Utah foram passando para não-membros da igreja, o que facilitava para colocar diversos mórmons na cadeia. O presidente da igreja, apóstolos e vários outros líderes passaram a viver na clandestinidade fugindo das autoridades para continuarem a prática da poligamia. Outras leis foram aprovadas, retirando até mesmo propriedades religiosas da igreja. John Taylor morreu enquanto fugia das autoridades em 1887, e a presidência passou para Willford Woodruff (1807–1898).
Woodruff queria acabar com esse sofrimento, até porque a igreja estava com muitas dívidas, a maioria dos membros estavam em profunda pobreza, pois não podiam viver legalmente em suas terras, e então na segunda metade de 1890 ele redige e publica o Manifesto, onde dizia que o casamento plural (como chamavam a poligamia) estava banido da igreja. Esse Manifesto foi aprovado na Conferência Geral em 06 de outubro de 1890, e houve manifestações de alegria por parte de mulheres que sofriam como segundas esposas nesses casamentos, como foi o caso de Annie Clark Tanner, que relatou: “um grande alívio veio sobre mim. (...) Naquele momento, comparei meus sentimentos de alívio com o experiência que se tem quando o primeiro raiar do dia vem depois de uma noite de cuidadosa vigilância sobre um paciente doente. Nessas horas, a luz do dia nunca é mais bem-vinda; e agora o amanhecer estava surgindo para a Igreja enfim, que se nossa Igreja tivesse algo que valesse a pena para a humanidade, seria melhor trabalhar com o governo de nosso país do que contra ele” [8].
Só que muitos ficaram descontentes com a igreja estar desobedecendo um mandamento divino para obedecer leis dos homens, como enxergavam. Além disso a igreja não obrigou as pessoas a abandonarem suas esposas e filhos, e até mesmo continuou aceitando novos pedidos de casamentos plurais, só que a presidência se desviava do assunto, quando pedidos chegavam a ela, eles mandavam procurar a presidência dos apóstolos para tais casamentos, que foram deixando de serem realizados nos EUA, mas vários aconteciam no México e no Canadá [9]. Com isso a maioria da liderança da igreja acreditava que o Manifesto era algo para o futuro, e assim, de fato, o Manifesto acabou sendo apenas algo “para inglês ver” e serviu apenas para confundir as autoridades dos EUA, que fez com que Utah se tornasse um estado e membro efetivo da nação, pois na prática, ele não mudou nada na igreja, pois a poligamia continuou a ser praticada e com apoio da presidência.
O presidente seguinte da igreja, Lorenzo Snow (1814–1901) seguiria a mesma política, mas problemas começariam após esse, na presidência de Joseph F. Smith (1838–1918). De acordo com Van Wagoner, o número de casamentos polígamos permitidos entre 1890 e 1904 foi de ao menos duzentos [10], mas Smith, a partir daí, começou a negar pedidos de novos casamentos, diminuindo os números. Porém vários líderes, incluindo os apóstolos Matthias Cowley, John W. Taylor, Marriner W. Merrill e George Teasdale, continuaram a praticar e defender a poligamia.
Devido ao fato de continuar a prática da poligamia, denuncias foram feitas ao estado, e nisso B. H. Roberts (1857–1933), historiador e setenta da igreja, que foi eleito para a câmara de Utah em 1900, foi impedido de tomar posse após investigações apontarem que ele praticava ainda a poligamia. A situação se repetiria em 1903, quando o apóstolo Reed Smoot (1862–1941) foi eleito ao senado. A igreja lançou Smoot a candidatura pois ele era o único apóstolo monogamista dos doze, porém ainda assim investigações foram iniciadas o que deixou a igreja numa posição muito ruim. Smith foi chamado a depor várias vezes, em todas ele negou saber de casamentos plurais novos feitos depois de 1890, um fato que se provou falso, pois o próprio Smith enquanto presidente dos apóstolos aprovou vários deles, e durante seus 3 primeiros anos de presidente da igreja, entre 1901 e 1904 ele havia aprovado cerca de 60 casamentos plurais novos [11]. Smith foi humilhado, e a igreja era vista como traidora daquilo que havia proposto.
Assim, as investigações feitas acerca de Smoot concluíram que a igreja autorizou diversos casamentos plurais após 1890, e temendo a perda de poder político da igreja, o já exausto e derrotado presidente Joseph F. Smith proclamou em 07 de abril de 1904 o Segundo Manifesto, que se propunha a excomungar todos que praticassem a poligamia na igreja. Após esse manifesto, realmente a igreja forçou todos a abandonarem a poligamia, e foi nesse contexto que John W. Taylor (1858 – 1916) e Matthias Cowley (1858 – 1940), ambos apóstolos, foram excomungados da igreja em 1911. Cowley chegou a voltar para a igreja em 1936, mas não recuperou sua posição como apóstolo.
A igreja excomungou todos que continuavam a praticar a poligamia, porém esses não deixavam de acreditar na doutrina mórmon, e começaram a se reunir em volta do filho de John Wolley, que fora um importante líder da época de John Taylor, que era visto como herói por resistir aos perseguidores da poligamia. Esse cara se chamava Lorin Calvin Woolley (1856–1934). Lorin foi o primeiro a narrar sobre a história da revelação de 1886 por escrito, afirmando que estava com Taylor quando ela foi encontrada em 1911. Lorin foi excomungado em 1924, mas como outros continuou a prática da poligamia e a acreditar na doutrina mórmon. Na década de 1920 a igreja mórmon pode começar a enfim crescer e vislumbrar um futuro pela frente, foi incluso a época que ela apareceu no Brasil, muito por causa da poeira ter baixado por causa de enfim a igreja acabar e lutar contra a poligamia, porém essa poeira baixa também acabou permitindo que os polígamos continuassem também a se reunir em volta de John Woolley, porém esse morreu em 1928, então no ano seguinte, seu filho Lorin fundou o Conselho dos Amigos (Council of Friends), uma instituição que juntava pessoas que ainda acreditavam na prática da poligamia, e estavam decididos a praticar o mormonismo como era antes de 1890, e por isso foram chamados de Fundamentalistas.
Na próxima postagem vamos verificar a história dos mórmons polígamos a partir de 1929, suas divisões e sede de poder no seu interior.
REFERÊNCIAS
[1] https://historiamormon.blogspot.com/2019/11/profetas-mormons-john-woolley.html
[2] https://historiamormon.blogspot.com/2019/11/a-revelacao-de-1886_11.html
[3] https://vozesmormons.org/2012/04/03/uma-posteridade-branca-e-deleitosa-origens-do-casamento-plural/
[4] A História da Igreja na Plenitude dos Tempos, pág. 280 a 284.
[5] Para os mórmons a exaltação é diferente da salvação. Exaltação é o ato de alguém se tornar Deus após a morte e ressurreição.
[6] Idem 4, pág. 352 a 354. B. Young nomeou o estado com Deseret, porém após sua anexação ele passa a se chamar Utah devido a grande presença de índios da tribo ute na região.
[7] Idem 4, pág. 423.
[8] TANNER, Obert C., A Mormon Mother: An Autobiography by Annie Clark Tanner. Salt Lake City: Tanner Trust Fund/University of Utah, 1976. Pág. 130.
[9] VAN WAGONER, R. S. Mormon Poligamy: A History. 1989. Capítulo 15.
[10] Idem 9, capítulo 16.
[11] Idem 10.
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