A REVELAÇÃO DE 1886

Por Rafael Silva
Historiador

[Para conhecimento prévio leia a primeira parte da publicação sobre John W. Woolley].

Muito tem-se discutido sobre a revelação dada em 1886 para John Taylor sobre o “novo e eterno convênio” do casamento plural, em suma a revelação diz que o casamento plural devia continuar. Hoje nessa publicação discutiremos um pouco sobre a natureza desta revelação bem como sobre sua validade tanto histórica como para a igreja como também sua autenticidade. Antes porém, vamos ver o que ela diz:



Revelação dada a John Taylor em 27 de setembro de 1886:

“Meu filho John, hás me questionado sobre o Novo e Eterno Convênio e o quão obrigatório deve ser ao meu povo. Assim diz o Senhor: Todos os mandamentos que Eu comando devem ser obedecidos por aqueles que se chamam por Meu nome, a menos que tenham sido por Mim revogados ou por Minha autoridade, e como posso Eu revogar um convênio eterno, pois Eu o Senhor sou eterno e Meus eternos convênios jamais podem ser anulados ou ignorados, mas permanecerão para sempre.
Não dei a Minha palavra com grande clareza sobre este assunto? E não houve grande número do Meu povo sendo negligentes na observância da Minha lei e em guardar os Meus mandamentos, e ainda assim Eu os suportei por todos estes anos; e isto por causa de suas fraquezas, por causa destes tempos perigosos, e ademais, é mais aprazível para Mim que os homens usem de seus livre-arbítrios nestes assuntos.
Não obstante, Eu o Senhor não mudo e Minha palavra e meus convênios e minha lei tampouco. E como Eu já proclamei ao Meu servo Joseph: Todos que desejam entrar na Minha glória devem obedecer a Minha lei. E não comandei aos homens que, sendo da semente de Abraão, e desejando entrar na Minha glória, eles devem fazer as obras de Abraão? Eu não revoguei esta lei, e tampouco o farei, pois é eterna, e aqueles que desejam entrar na Minha glória devem obedecer estas condições; assim será, Amém.”

A revelação a seguir, que nunca teria sido apresentada a igreja estava claramente falando que o convênio do casamento plural devia continuar, e tal como colocamos na postagem sobre John Woolley, a igreja estava em profunda crise financeira, política e social devido a prática da poligamia. Assim, para salvar a igreja foi lançado o Manifesto em 1892 proibindo o casamento plural. Porém o mesmo acabou apenas servindo para acalmar os ânimos, pois vários membros dentro da igreja continuaram a praticar o casamento plural, sendo os principais 2 membros do Qórum dos Doze, John W. Taylor e Matthias Cowley. Nesse momento a igreja acabou sendo permissiva com esses dois apóstolos e outros membros pois a preocupação tanto do final da presidência de Wiford Woodruff (1807 – 1898) como a de Lorenzo Snow (1814 – 1901) foram principalmente de salvar a igreja de sua profunda crise financeira. Porém o caso ocorrido com o apóstolo Brigham H. Roberts (1857 – 1933) em 1898, impedido de assumir o cargo de senador acusado de ser polígamo, e do apóstolo Reed Smoot (1862 – 1941) entre 1903 e 1908, também acusado de diversas brutalidades, dentre elas a poligamia, levou o sexto presidente da igreja, Joseph F. Smith (1838 – 1918) a lançar em 06 de abril de 1904 o “Segundo Manifesto”, que prometia excomungar todos aqueles que insistissem em continuar com a prática do casamento plural. 

John W. Taylor foi questionado em 1906 acerca de seus casamentos, e ele se negou a parar de pratica-los, e por isso foi expulso do Qórum dos Doze. Em 1911 novamente questionado sobre o assunto ele achou nos escritórios de seu pai a revelação acima, datada de 1886 mas escrita a seu próprio punho. É dito que havia fotocópias da revelação, escrita com as mãos de seu pai, mas todas desapareceram. Usando essa revelação como defesa o Élder Taylor insistiu com a prática da poligamia, e acabou naquele ano sendo excomungado da igreja. Vale-se lembrar que, durante essa audiência os apóstolos Charles W. Penrose (1832 – 1925) e Francis M. Lyman (1840 – 1916) se referiram à revelação de John Taylor como uma "suposta revelação". Interessante de se notar é que após excomungado Taylor não participou de nenhuma igreja fundamentalista nem cogitou fundar uma, apenas continuou com sua prática.

O primeiro a escrever sobre a revelação acabou sendo Lorin C. Woolley (1856 – 1934) que disse que quando recebeu esta revelação John Taylor estava na casa de seu pai, John Woolley, porém em seu livro “The Polygamy Story: Fiction and Fact”, J. Max Anderson, demonstrou que isso apenas foi uma forma de se coloca-lo na história, e que a mesma mudou várias vezes, podendo a data da revelação ser outra. Woolley usou desta revelação para fundar a primeira igreja fundamentalista em 1928, o Concílio dos Amigos. 

Assim sendo o movimento fundamentalista é considerado uma seita de pessoas que não aceitaram se submeter as revelações e ordens da igreja e a continuarem assim com o casamento plural. Não se sabe até onde a revelação de 1886 é autêntica pois não existe nenhuma cópia de escrito de próprio punho de John Taylor e pode-se duvidar até mesmo da data em que a mesma foi recebida, e mesmo os conselheiros de John Taylor tiveram qualquer conhecimento sobre tal revelação, fazendo que os apóstolos no futuro nem acreditassem na mesma. 

Bibliografia:

“A História da Igreja na Plenitude dos Tempos”, publicação oficial d'A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, capítulo 36.
https://www.eldenwatson.net/3JT1886Rev.htm 

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