A IGREJA BICKERIONITA – PARTE 1

 Por: R. Silva


Em continuação aos escritos sobre a história e doutrinas das mais diversas igrejas mórmons, hoje falaremos sobre uma igreja que tinha de tudo para crescer, mas acabou sendo um dos maiores fiascos dentro do mormonismo que foi a igreja fundada por Sidney Rigdon (1793 – 1876) e depois refundada por um de seus seguidores, William Bickerton (1815 – 1905).



História


Sidney Rigdon foi um dos primeiros membros da recém fundada igreja mórmon, sendo batizado pouco depois de sua fundação, em 1830. Rigdon sempre fora muito religioso, se tornou batista aos 24 anos em 1817 e em 1819 ele já se tornara ministro da igreja e no ano seguinte assumiu uma congregação em Ohio. Rigdon teve como mentor na igreja batista Alexander Campbell (1788 – 1866), um dos mais proeminentes líderes da igreja nos EUA. Ou seja, Rigdon se tornará um excelente pregador, e quando se tornou mórmon usou esse seu dom para levar vários outros para a igreja.

Rigdon ficou ao lado de Joseph Smith durante muito tempo, tendo clamado receber revelações e visões junto com Joseph Smith e também acompanhou o amigo para a cadeia de Liberty em 1838. Tal apoio fez com que Smith o colocasse como membro da Primeira Presidência, o mais alto cargo na igreja logo depois de Smith, quando essa foi formada em março de 1833. Apesar dos altos e baixos que a relação entre Joseph Smith e Sidney Rigdon passaram até a década de 1840, no dia 01 de junho de 1841 Rigdon foi nomeado “Profeta, Vidente e Revelador” da igreja por Smith, que no caso era o mesmo cargo de Smith [1]. Diante dos demais membros a autoridade de Rigdon era a mesma de Smith, e aí nasceria as raízes da crise de sucessão na igreja, pois a partir daí a relação entre Smith e Rigdon começou a se deteriorar, e Rigdon começou a fazer cada vez menos coisas dentro da igreja.

A situação ficou pior em outubro de 1843 quando Joseph Smith deu ouvidos a uma série de testemunhas indiretas que acusavam Rigdon de telo entregado as autoridades estaduais em casos de poligamia, e o afastou da Primeira Presidência da Igreja, porém ele continuou mantendo laços com Smith, tentando provar sua inocência, tanto que no ano seguinte Rigdon se uniu a Smith na campanha de Smith a Presidente dos EUA, se colocando como seu candidato a vice-presidente. O assassinato de Joseph Smith na cadeia no final de julho de 1844 colocou um fim a tentativa de ser presidente do mesmo, e iniciou-se a chamada “Crise de Sucessão”. Como Rigdon não estava em Nauvoo (a capital da igreja) quando se deu o assassinato de Smith, e sim em outra cidade trabalhando na campanha política, ele retornou a Nauvoo em 03 de Agosto de 1844, e se aproveitando da posição que gozou ao lado de Smith por cerca de 10 anos, começou a pregar para a igreja que ele era o sucessor de Smith, e que ele deveria ser o “Guardião da Igreja” e como já vimos [2] ele conseguiu inicialmente o apoio de William Marks, o presidente da Estaca de Nauvoo.

Após a Conferência de 08 de Agosto de 1844 na qual a maioria votou pelos Apóstolos (comandados por Brigham Young) dirigirem a igreja, Rigdon começou a pregar que essa reunião fora inválida e um mês depois, mesmo sem a presença de Rigdon no Conselho da igreja, ele foi excomungado por suas ações “rebeldes”. Rigdon por sua vez, junto aos poucos que lhe apoiaram, excomungou todos os doze apóstolos, porém os seguidores dos Doze começaram a ameaçar Rigdon e ele foi obrigado a deixar a cidade de Nauvoo em meados de setembro.

Rigdon se instalou em Pittsburgh, capital da Pensilvânia, e ali fez no ano seguinte, no dia 06 de Abril de 1845 uma conferência onde se colocava como Presidente da igreja e sucessor de Joseph Smith e restaurava a Primeira Presidência e o Quórum dos Doze Apóstolos. Essa igreja que adotou o nome de “Igreja de Cristo” (Church of Christ) continuou a publicar o jornal da igreja da época anterior a ida para Nauvoo, o “The Messenger and Advocate” (O Mensageiro e Advogado), onde nele Rigdon revelou todos os segredos da poligamia de Joseph Smith, e também pregava que Smith se tornou um “profeta caído” (fallen prophet) a partir do momento que começou a pregar o casamento plural. Na Conferência do ano seguinte, que se deu na Filadélfia, Rigdon chamou seus seguidores a investir num banco comunitário que ele criou chamado “Adventure Farm”, na Pensilvânia [3], porém o projeto veio a falir no ano seguinte, e sua igreja desmoronou, os seus apóstolos se debandaram, alguns se unindo a igreja criada por David Whitmer (1805–1888), uma das testemunhas do Livro de Mórmon, outros indo para outras denominações cristãs. A igreja de Sidney Rigdon durou apenas 3 anos, de 1845 a 1847, ficando após a falência de seu projeto ainda alguns remanescentes, porém Rigdon os abandonou e foi viver em Nova Iorque até sua morte.

Um dos remanescentes da igreja foi o apóstolo William Bickerton (1815–1905) que se manteve fiel a igreja mesmo após a falência do projeto. Ele começou a se reunir informalmente com os poucos remanescentes desta igreja na Pensilvânia em 1849 e em 1862 refundaria oficialmente essa igreja em Monongahela, Pensilvânia. Outro que tentou salvar a igreja foi um homem chamdo Stephen Post (1810–1879), um homem que entrou para a igreja mórmon na Pensilvânia na época que Joseph Smith ainda era vivo (1835) e após 1844 deu seu apoio a Rigdon, porém se debandou em 1847 junto aos outros, depois em 1856 escreveu para Rigdon em Nova Iorque e esse deu apoio a Post para iniciar uma missão em seu nome. A igreja de Post sempre teve poucos membros, e acabou quando sua esposa e sucessora Jane Post morreu em 1882 [4].


[CONTINUA. Na parte dois vamos falar o que acontece após Bickerton assumir o controle da igreja]


REFERÊNCIAS:


[1] MCKIERNAN, F. Mark. The Voice of One Crying in the Wilderness: Sidney Rigdon, Religious Reformer. Independence, Missouri: Herald House, 1979. p. 56.

[2] https://historiamormon.blogspot.com/2020/05/a-historia-da-igreja-reorganizada-parte.html

[3] PITZER, E. America's Communal Utopias. Chapel Hill: University of North Carolina Richard Press, 1997. Pág. 484.

[4] LAUNIUS, Roger D.; THATCHER, Linda. Differing Visions: Dissenters in Mormon History. Champaign: University of Illinois Press, pp. 190–192.





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