Por Rafael Silva
Historiador
Vamos começar
uma série inicial nesse blog explicitando sobre as pessoas que
clamaram ser profetas dentro do movimento do mormonismo, criando
rachas e seitas dentro do mesmo, e hoje para começar vamos
falar sobre o pioneiro do fundamentalismo John W. Woolley (1831 –
1926). Porém antes de falar sobre ele propriamente dito,
entenderemos as razões do porque do surgimento dos mórmons
fundamentalistas.
Os Antecedentes e o
Plano de Fundo
Quando o terceiro
presidente d'A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos
Dias, John Taylor, faleceu em 25 de julho de 1887 a igreja estava
imersa numa grande luta do governo dos Estados Unidos contra os
polígamos, e como a igreja praticava abertamente a poligamia
(também chamada de casamento plural) ela se tornou o principal
alvo dessa luta. Essa luta havia se intensificado desde 1882, quando
leis foram instituídas onde polígamos podiam ser presos
sem uma acusação formal, terem suas propriedades
confiscadas e terem seus direitos de cidadãos retirados, assim
vários membros da igreja, inclusos da Primeira Presidência,
como George Q. Cannon (1827 – 1901), foram presos acusados de
violar as leis dos EUA e várias propriedades da igreja foram
confiscadas, incluso o próprio quarteirão do Templo de
Salt Lake City. Com a aprovação da Lei Edmund-Tucker em
março de 1887 as coisas pioraram, pois agora até as
mulheres passavam a serem obrigadas a testemunhar contra os maridos e
todos os casamentos deviam ser registrados, e isso facilitava ainda
mais a perseguição contra os mórmons que
praticavam o casamento plural. E mesmo diante dessas perseguições
os mórmons sinsistiam em continuar com a prática da
poligamia, já que para eles era um mandamento divino, tanto
Wilford Woodruff (1807 – 1898) como John Taylor receberam
revelações em 1880 (para Woodruff) e 1886 (para Taylor)
dizendo que a poligamia devia continuar. Assim quando Woodruff
assumiu a presidência da igreja ela estava com diversas
dívidas, muitas delas exorbitantes e desprovida de muitos de
seus bens e a imensa maioria dos mórmons estava sem seus
direitos civís.
Quando Woodruff assumiu
a igreja ele vivia na clandestinidade, morando em St. George e sendo
protegido por advogados da igreja e amigos, assim como fizera seu
antecessor nos últimos anos. Em maio de 1890 a igreja sofreu
uma de suas principais derrotas econômicas quando apelou na
Suprema Corte contra o confisco de gráficas das igreja, pois
sem elas a igreja não poderia publicar livros, revistas e
outros para os membros, porém a lei foi mantida e a apelação
não mudou em nada. Pouco tempo depois, no mesmo ano apareceu a
proposta de lei Cullom-Strubble que privaria todos os membros da
igreja, casados ou não, de seus direitos de cidadania, em
todas as regiões do país. Impedidos de votar em
fevereiro de 1890 a igreja perdeu o controle político de Salt
Lake com a vitória de não-mórmons na cidade, e
isso significava que a educação secular estava nas mãos
desses. Em setembro de 1890 o presidente da igreja, Wilford Woodruff
escreveu em seu diário que faria o possível para salvar
a igreja do desastre, e esse foi o ponta-pé inicial para o
manifesto. Em 24 de setembro de 1890 então Woodruff apresentou
para seus conselheiros o que hoje é a Declaração
Oficial 1 (também conhecida como O Manifesto de 1890) onde
nele estava claramente escrito que a igreja deveria deixar de
“celebrar casamentos proibidos pelas leis do país” (DO-1).
No dia seguinte esse manifesto já estava em todos os jornais
do país e no início de outubro de 1890 o manifesto foi
lido e aprovado pela igreja em conferência geral.
Apesar da publicação
do manifesto, ele acabou mais servindo para acalmar os ânimos
das autoridades governamentais bem como para que a igreja pudesse se
reestabelecer como autoridade política e religiosa em Utah,
mas vários membros da igreja continuaram praticando o
casamento plural, mas de forma escondida, incluso dois membros do
Qórum dos Doze Apóstolos a se contar, John W. Taylor
(1858-1916), filho de John Taylor, e Matthias F. Cowley (1858-1940).
Além disso o Manifesto acabava com o casamento plural no país
cujo as leis eram contra esse, mas em países como o México
e o Canadá a prática por parte de muitos mórmons
continuou. Determinado a findar completamente com o casamento plural
na igreja, em 1904 o presidente da igreja Joseph F. Smith (1838-1918)
publicou aquele que seria conhecido como Segundo Manifesto que dizia
que se algum membro da igreja contraísse um casamento plural
“ele será considerado uma transgressão contra a
Igreja e estará suscetível de ser tratado de acordo com
com suas regras e regulamentos e excomungados a partir delas”
(Conference
Report,
April 1904 pág. 75). Os
dois membros do Qórum dos Doze já citados, Taylor e
Cowlley se negaram a se desfazer de seus casamentos plurais e foram
expulsos dos Doze em 1906 e excomungados em 1911. Foi nesse contexto
que John Woolley viveu.
John Woolley
John Wickersham Woolley
nasceu em 30 de dezembro de 1831 na Pensilvânia. Seu pai entrou
para o mormonismo em 1837 e na década seguinte a família
Woolley emigrou para Utah junto com outros pioneiros mórmons.
Seu pai, Edwin D. Woolley serviu como bispo da igreja entre 1853 e
1881 e era amigo pessoal de Brigham Young, o segundo presidente da
igreja. Já John Wooley na década de 1850 acumulou
diversos cargos dentro do território como Juiz de Paz, xerife
e deputado territorial, porém nesse momento suas principais
funções eram mais as militares, servindo em cargos
importantes dentro da Legião de Nauvoo (no estado de Utah, que
na época se chamava Deseret), e chegou a lutar numa guerra
contra os índios em 1857, mesmo ano do Massacre de Mountain
Meadows. Dentro da igreja ele foi ordenado Sumo Sacerdote por Brigham
Young e ainda serviu como presidente da Estaca Davis, depois foi
ordenado patriarca e posteriormente oficiante no Templo de Salt Lake
City. John Woolley foi tio do presidente Spencer W. Kimball
(1895-1985), o décimo segundo presidente da igreja, bem como
também dos apóstolos J. Reuben Clark Jr (1871-1961) e
John W. Taylor.
O Concílio dos
Amigos continuou sendo a única igreja fundamentalista até
a década de 1950, apesar de que muitos mórmons
(chamo-os de mórmons pois suas crenças não
mudaram, mesmo excomungados) que foram excomungados da igreja
continuavam a praticar a poligamia de forma independente. A partir
dessa década começaram a surgir grupos menores, todos
se dizendo uma continuação do Concílio dos
Amigos, sendo que uma das que mais cresceu foi a Igreja
Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias
(conhecida como igreja FSUD ou por sua sigla em inglês, FLDS)
fundada por Rullon Jeffs na década de 1980.
Bibliografia
História da
Igreja na Plenitude dos Tempos – Publicação oficial
da Igreja SUD, capítulos 33 e 34.
History of the
Fundamentalist Mormonism, por Brian C. Hales, capítulos 2 e 3.
Lorin C. Woolley
Biography, por Brian C. Hales, capítulos 1 e 2.
Mormon Polygamy A
History, por Richard S. Van Wagoner, capítulos 13 e 15.
Como já relatei há bastante controvérsia sobre a revelação de 1886 de John Taylor. No texto afirma ainda que Wilford Woodroof recebera uma revelação em 1880 de que a Poligamia deveria continuar. Desconhecia os detalhes da revelação anterior de Woodroof (recebida quando era apóstolo e John Taylor era a presidente da Igreja). Achei a referência abaixo na Internet e gostaria apenas de comentar uma coisa. A revelação fala mais dos julgamentos de Deus contra os inimigos da Igreja que a perseguem sobre a questão poligamia, não há uma afirmação precisa de que a poligamia sempre iria continuar, isto é apenas uma inferência ou interpretação sobre a mesma: https://historyofmormonism.com/2010/03/29/woodruff-revelation/
ResponderExcluirObrigado por seu comentário, se possível no futuro voltarei a escrever sobre o assunto.
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